LIVRO RELEMBRA O AUGE DA COMUNIDADE HIPPIE EM AREMBEPE



Roman Polanski e Jack Nicholson, dois últimos à direita (reprodução)

'Arembepe - Aldeia do Mundo' fala sobre a passagem de celebridades pela aldeia hippie nos anos 1970. Cláudia Giudice, Luiz Afonso e Sérgio Siqueira são os autores


O escritor Jorge Amado tem um livro inacabado chamado Bóris, o Vermelho. O protagonista do título é um hippie fictício que vivia em Arembepe, a poucos quilômetros de Salvador, onde se desenvolveu uma das aldeias hippies mais conhecidas do país, famosa por ter atraído celebridades como Mick Jagger, Janis Joplin e Jack Nicholson. "Bóris era um arembepiano, que fumava baseado e tinha simpatia pelo movimento hippie", garante Sérgio Siqueira.


Sérgio, que foi gerente de produção e criação da Rede Bahia, é o autor de Anos 70 Bahia: Vertigem e Contracultura no Paraíso Tropicalista. Agora, ele se prepara para lançar, em novembro, junto com Cláudia Giudice e Luiz Afonso, um livro sobre a presença do movimento hippie no estado também naquele período: Arembepe - Aldeia do Mundo, pela editora Máquina dos Livros.


A publicação resgata esse episódio sobre o escritor baiano e muitas outras histórias, como o dia em que hippies foram à sede do governo do Estado para protestar contra o então eminente fechamento da aldeia de Arembepe.

Segundo Sérgio, Jorge Amado costumava ir à comunidade hippie baiana a pedido de amigos, que queriam notícias de seus filhos, que viviam ali e, às vezes, passavam meses sem se comunicar com os pais, já que encontrar um telefone por ali naquela época era mais difícil que encontrar neve em Salvador.


"Samuel Wainer (jornalista) e Fernando Sabino (escritor) falavam com Jorge, e pediam a ele pra ir a Arembepe atrás de notícias dos filhos deles. Lá, Jorge ficou encantado com a comunidade hippie e começou a rabiscar o Bóris, o Vermelho, mas nunca o concluiu", observa Sérgio. Mas, afinal, por que o escritor deixou a obra inacabada? Seria crise criativa?

Rita Lee, montada num cavalo em Arembepe (foto: Wagner Berber/divulgação)

"Para escrever, Jorge Amado gostava de fazer uma imersão no ambiente. Mas, ali, ele conseguiu imergir, porque ele já tava velhinho pra fumar maconha com aqueles meninos", brinca Sérgio.

Os autores entrevistaram pessoas que viveram na aldeia hippie de Arembepe e outras que estiveram de passagem por lá.


"A internet e as redes sociais permitiram encontrar pessoas importantes para falar com a gente. O livro fala de sonho, aventura, transgressão... de um movimento que era contra o sistema. Sua bandeira era o desprezo pelo sistema!"

Sérgio tem 70 anos e, quando Arembepe estava em seu auge, ele tinha por volta de 20 anos de idade. Não chegou a viver lá, mas visitou o lugar algumas vezes e desenvolveu um interesse pessoal por aquela história:


"Comecei a me interessar porque nos anos 70 vivi a efervescência da Bahia. Arembepe tinha tanta gente que, uma vez, a polícia prendeu todo mundo dali, porque o lugar era uma espécie de nova Canudos, mas sem arma. Eram pessoas de todas as nacionalidades, vivendo sem documento, com vestimentas incomuns... ninguém entendia e aquilo chamou a atenção dos militares", diz Sérgio.

Além das entrevistas, o livro tem fotos muito curiosas, que registram a presença de artistas brasileiros como Rita Lee e Ney Matogrosso. Personalidades internacionais já citadas, como Jack Nicholson, também estão nos cliques que aparecem no livro. O astro do cinema americano esteve na Bahia junto com o cineasta Roman Polanski, que também está na imagem. Rita Lee aparece montando cavalo numa foto e Ney, em outra, toma banho na Lagoa de Arembepe.


Segundo Sérgio, a aldeia começou em 1968 e atingiu o auge entre o Verão de 1971 e o de 1972. Seguiu até o fim dos anos 1970, mas, aos poucos, perdeu parte de seu encanto.


"Algumas casas continuam lá e o que importa é que muita gente resistiu ao sistema. A aldeia virou um símbolo de luta e até hoje ela resiste".

Ney Matogrosso, na Lagoa de Arembepe (reprodução)

Para o coautor do livro, o movimento hippie deixou um legado importante:


"Ficou a comida orgânica, as eco Villas vêm daí, a conexão com o oriente, a Yoga, a ecologia, a liberdade das mulheres e o princípio de igualdade e simplicidade, o contato com a natureza, o princípio de desapego e simplicidade, entre outras coisas".

O livro será entregue em novembro e a campanha de financiamento coletivo vai até dia 9 de outubro, no site Catarse, no endereço catarse.me/arembepe. A versão em PDF livro sai por R$ 30. Já a versão impressa mais barata sai por R$ 58. Há opções, como adquirir cinco livros por R$ 50 cada ou, por R$ 600, fica com o livro e duas diárias em uma pousada em Arembepe.




Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/livro-relembra-o-auge-da-comunidade-hippie-em-arembepe/

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