FESTEJOS DA BAHIA: O CORTEJO DO BONFIM


Foto: Felipe Iruatã

Uma promessa que terminou em uma grande festa. Precisamente, a segunda maior festa popular da Bahia, com mais de dois séculos de história e tradição. Foi em 1745 que a imagem de Jesus crucificado cruzou o Oceano Atlântico prestes a aportar na cidade dos mistérios, São Salvador. Era então carregada pelo capitão português, Teodósio Rodrigues de Farias, que honrava um compromisso feito após sobreviver a uma forte tempestade. O Cristo chegaria primeiro à Igreja da Penha, em Itapagipe, onde ficou até 1754. Foi no ano seguinte, durante o mês de julho, que a imagem seguiu para o seu destino final: a Colina Sagrada, na Igreja do Bonfim. Ali receberia as mais distintas homenagens e viraria o símbolo do sincretismo religioso na Bahia, adorado por fiéis de todo Brasil.


Era quinta-feira, às vésperas da grande festa. Homens e mulheres em situação de escravos, trazidos do continente africano, ficavam responsáveis pela limpeza e preparação da paróquia. No segundo domingo, após o Dia de Reis, seria celebrado o Dia do Senhor do Bonfim, o mesmo Cristo crucificado. Exatamente no período em que negros escravizados, proibidos de cultuar seus ancestrais trazidos em diáspora, reverenciavam Oxalá, o pai de todos os orixás. Com a obrigatoriedade do trabalho, veio também a força de suas crenças.


Sinalizariam, então, o primeiro movimento sincrético entre esses dois personagens divinos. Enquanto lavavam a escadaria da igreja para Senhor do Bonfim, emanavam suas energias para as Águas de Oxalá, obrigação preservada em algumas casas de religiões de matriz africana, realizadas nos seus espaços de cultos sagrados.


O que é feito com devoção vira palco da alegria. O cortejo até a Colina Sagrada se encheu de águas de cheiro, músicas e danças, o que culminou na proibição da lavagem da Igreja, em 1889, por parte do arcebispo da Bahia, Dom Luís Antônio dos Santos.


“Com a proibição da lavagem do interior da igreja, os religiosos de matrizes africanas realizavam o cortejo e ficavam responsáveis por lavar o seu adro. Nos terreiros Ketu, a exemplo da Casa de Oxumarê, nós temos uma cerimônia que reúne os filhos de santo, onde todos carregam quartinhas com água na cabeça e saem em procissão, vestidos de branco. Essas águas são sacralizadas no período em que se cultua Oxalá. Essa associação está muito presente na Lavagem do Bonfim, quando as baianas e o povo de santo seguem da Conceição da Praia, carregando suas águas e flores na cabeça, até a Colina Sagrada”, relata Ailton Ferreira, sociólogo, educador e Ogã de Oxaguiã da Casa de Oxumarê.

O relógio marcava 7h30 e a Praça Castro Alves estava cheia de ambulantes que vendiam água, chapéus e pequenas pochetes de pano para proteção dos pertences dos fiéis. Era a porta de descida pela Ladeira da Montanha, um dos caminhos mais próximos para a chegada na Igreja da Conceição, ponto de partida do cortejo da Lavagem do Bonfim.


Nas ruas, baianas vestiam saias brancas rodadas, singuês – faixas amarradas nos seios, blusas rendadas, longas bermudas presas à cintura, acompanhadas pelo pano da costa e o ojá, fixado nas cabeças. Nas mãos, quartinhas de barro com água de cheiro dividiam espaço com flores e frascos de alfazemas. No pescoço, contas de diversos tamanhos e cores.


Distribuindo seus sorrisos de destaque, sambavam ao som de pequenos grupos que se aglomeravam no local e preparavam-se para a longa caminhada de oito quilômetros que aconteceria logo depois da missa de abertura, para saudar Oxalá. Valquíria dos Santos, de 59 anos, é uma delas. “Já alcancei muitas graças com a minha fé. Vou aqui levando minhas flores e água de cheiro, mas também com muito samba no pé”. Há 35 anos ela faz esse mesmo trajeto.


O padre da Igreja do Bonfim, Edson Menezes, era um dos homens encarregados de sustentar acima dos ombros a imagem de Senhor do Bonfim, pronta para sair em procissão até a Colina Sagrada. Na cola do cortejo, uma imensa quantidade de gente acompanhava a movimentação da representação do Cristo.


“A festa de Senhor do Bonfim é, na cidade de Salvador, um acontecimento marcante. Uma ocasião em que todo o povo demonstra sua fé e devoção naquele que é nosso farol, a luz que nos ilumina”, afirmou o pároco.

Ao longo percurso, um mar de gente vestida de branco, enchendo a vista daqueles que acompanham a passagem lá do alto. Helicópteros de emissoras de televisão e drones tecnológicos captam o momento com maestria. No chão, uma caminhada marcada por muita irreverência. Microtrios seguem no circuito, em ritmo carnavalesco, fazendo a alegria do povo. O sagrado e o profano se misturam, traduzindo o real significado das festas de largo da Bahia.


Um trio elétrico chama atenção logo na saída, com uma chuva de pipoca simbolizando a limpeza e a proteção. É o Afoxé Filhos de Gandhy, fundado em 1949, constituído exclusivamente por homens inspirados no princípio da paz. Sua indumentária, marcada pelas cores azul e branca, é tradicionalmente simbolizada por lençóis e toalhas, em representação às vestes indianas.



Em sintonia com o tema da Lavagem do Bonfim, “Jesus, o amado Senhor do Bonfim, é a nossa paz”, eles rogavam paz a Oxalá no desfile em que comemoravam o 40° ano de sua participação.

O clima de fé mistura-se rapidamente com a energia de contentamento que invade a avenida principal. A festa é de todos, dos fiéis e turistas aos comerciantes que investem em vendas de cerveja, quitutes, fitinhas coloridas, flores e outras mercadorias diversas. Carregam seus artigos em carroças, carrinhos de mão, varais de madeira ou mesmo apoiados na cabeça, como é o caso da florista que equilibra cerca de 120 flores em um cesto de palha para vender durante o percurso. Mesmo com o sol a pino, iluminando tudo à frente, todos seguem por uma só estrada, sem desistência. Pois, como diz o ditado entoado diversas vezes durante aquele dia, quem tem fé vai a pé.


Da baixa da Colina já é possível avistar a Igreja. Para chegar até o portão, coberto por milhares de fitinhas coloridas carregada de pedidos, é preciso agilizar o passo. Uma multidão de gente se reúne para assistir à missa de Padre Edson, que reverencia a pluralidade daquele ato inter-religioso. Em um tempo onde não se faz mais necessário esconder a fé, se faz importante reafirmar o espaço público de crença.

Enquanto isso, as baianas que já se encontram em evidência, no grande palco do dia, dão início ao tradicional gesto da lavagem, jogando água de cheiro e flores no chão do adro da paróquia, munidas de vassouras: o poder simbólico da resistência de uma religião de tamanha grandeza. Como de costume, o gesto é acompanhado por dezenas de fotógrafos que se espremem para garantir um bom recorte da cena.


O festejo popular continua até o romper do dia. Inúmeras barracas preparam comidas típicas para aqueles que chegam famintos ao ponto final. O povaréu, que de tamanho parece não caber em um só bairro, se divide entre as ruas da Cidade Baixa, esquentando o corpo no samba de roda, trocando os pés na batida dos atabaques e celebrando a vida com festa e devoção.


Fonte: http://www.saravacidade.com.br/festejo/festejos-da-bahia-o-cortejo-do-bonfim/#jp-carousel-1813

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