SOCIEDADE PROTETORA DOS DESVALIDOS: 186 ANOS EM DEFESA DO POVO NEGRO



Com o aval da Coroa Portuguesa, no ano de 1832, a Sociedade Protetora dos Desvalidos foi criada por um grupo de homens negros livres no Brasil escravista, sob a liderança de Manoel Vítor Serra. Nessa época, com a imposição do catolicismo enquanto religião única e para livrar-se da obrigação de assegurar o culto no país, através da construção de igrejas, a realeza passou a permitir a existência de irmandades religiosas com apoio da Igreja Católica. Era século XIX e a liberdade, bem como uma série de outros direitos humanos básicos, era negada à maioria dos homens e mulheres escravizados no Brasil Colônia.


Manoel Vítor Serra e um grupo de africanos livres, que poupavam recursos para situações emergenciais, resolveram, então, se reunir. O propósito seria resgatar os direitos humanos do povo negro através do enfrentamento a partir de três elementos: o racismo, a imposição religiosa e as desigualdades sociais. Tudo isso seria feito, é claro, nos bastidores da organização religiosa, inicialmente intitulada Irmandade de Nossa Senhora da Soledade Amparo dos Desvalidos, já que não podiam gozar plenamente de suas cidadanias na cidade do Salvador.


“A SPD é a primeira instituição do movimento civil organizado que permanece por mais de 180 anos. Como eles resistiam? Como todo processo da cultura negra, nos bastidores. Acreditamos que ela surge com o foco de dar amparo entre dois movimentos importantes: a Revolta dos Búzios, que aconteceu em 1798 e a Revolta dos Malês, em 1835. Ambas passaram, mas a sociedade permaneceu”, conta a Prof. Lígia Margarida Gomes, presidente da SPD.


Entre as funções de empoderamento e resgate dos direitos humanos do povo negro, uma das mais importantes atividades da Sociedade Protetora dos Desvalidos era comprar cartas de alforrias para homens escravizados que ainda pertenciam aos algozes senhores. Essa era uma atividade também desenvolvida pela Igreja do Rosário dos Pretos e Irmandade da Boa Morte. Porém, depois de gozar da sua liberdade, o que fariam esses homens, habituados ao ofício da lavoura?


“Após comprar sua carta de alforria, eram capacitados nos ofícios da época: marceneiros, carpinteiros, aprendiam a colocar telhados, a fazer roupas através das aulas de alfaiataria. Essa casa, então, virou um centro de formação e fez com que os desvalidos não fossem abandonados. Com essas formações, iam ganhar a vida e posteriormente contribuíam para o fortalecimento da instituição e empoderamento de outros homens negros”, acrescenta Lígia Margarida.

Embora fosse uma sociedade criada por homens e para os homens, as mulheres também eram assistidas de forma estratégica. A SPD instituiu o micro crédito, responsável por empréstimos que acabavam sendo o único meio financeiro para a criação de tabuleiros daquelas que viviam de ganho. O empréstimo era pago com um pequeno acréscimo de juros, o que fazia com que a sociedade prosperasse financeiramente.


No casarão em frente ao Largo do Cruzeiro do São Francisco também funcionou a Loteria Nossa Senhora dos Desvalidos. Provando que eram bons de matemática e de negócios, os membros criaram um sistema de loteria que vendia os bilhetes, pagava o prêmio ao vencedor e o restante do dinheiro era direcionado para a sobrevivência da sociedade. Essa, além da compra e aluguel de imóveis, era uma forma de manutenção das atividades.


Pensando nos homens e mulheres que vieram em diáspora sem seus familiares, ficando à mercê da sorte caso sofressem com algum tipo de doença física, a Sociedade Protetora dos Desvalidos criou também uma casa de acolhimento. Idosos e enfermos tinham um endereço próprio com cuidados garantidos pela instituição. Seus criadores tinham um olhar sobre os homens e mulheres que viviam sem proteção social, a parte da classe dominante, com seus direitos humanos prejudicados.


Enquanto sociedade que batalhava pelo enfrentamento da imposição religiosa, a SPD – mesmo fundada dentro dos moldes católicos por pura estratégia de sobrevivência -, tinha uma série de membros muçulmanos que praticava seu culto de forma velada. O local abriga também um Peji, local sagrado das religiões de matriz africana, antes protegido por uma parede falsa para driblar as constantes fiscalizações daquele período.


“Mesmo em um lugar onde o catolicismo é tão forte, como o Pelourinho, temos aqui os protetores dessa casa, que trabalham incansavelmente para nos proteger e fortalecer. Eles foram trazidos ainda na época da escravidão”, esclarece.


Há quase 20 anos sócia da instituição e há sete anos ocupando o mais importante posto, a presidente Lígia Margarida vive os desafios de atualizar as ações da SPD, sem perder de vista os seus princípios. Participante ativa do movimento negro e feminista, e engajada no fortalecimento da juventude periférica de Salvador, trava hoje as mesmas lutas já encaradas pelo povo negro do século XIX, que se articulavam no grande casarão azul.


Mesmo com alguns avanços, a liberdade – embora seja um direito humano assegurado, ainda não vem acompanhada pelo respeito, pela igualdade, pela inserção do negro no mercado de trabalho, pela segurança das práticas religiosas e, principalmente, pelo direito à vida da nossa juventude. A luta continua.

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