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BAIANA DE ACARAJÉ VIRA INFLUENCER AOS 66 ANOS E FAZ SUCESSO NA WEB


Foto: Ana Lúcia Albuquerque / CORREIO


Negra Lu já acumula mais de 100 mil seguidores


No jornalismo, há uma formalidade de sondar o personagem para saber a forma como ele gostaria de ser chamado. “Te chamo de Maria Lúcia ou Negra Lu?”, indaguei. A resposta, de bate-pronto, escancarou que formalidade não é com ela.


“Eu sou a Negona da Favela”, fixou.

A favela citada é no bairro de Cidade Nova, em Salvador.


“Nem é favela, favela mesmo. Tem gente que tem vergonha, eu não. Tenho orgulho de onde nasci e vivo até hoje”, pontua.

Já a Negona em questão é uma funcionária pública aposentada e baiana de acarajé de 66 anos, que soma mais de 100 mil seguidores nas redes sociais.


Sob a alcunha de Negra Lu, Maria Lúcia Sousa começou a experimentar o TikTok (Negra_lu_56) em 2020, no auge da pandemia. Reclusa havia seis meses, iniciou os vídeos como uma forma de se distrair e escapar daqueles dias em que ela não falava nenhuma palavra - experiência quase torturante.

Para os vídeos, os ingredientes são bom humor e alto astral. Em um deles, que viralizou, Negra Lu aparece em um domingão, toda embecada, comendo um pratão de feijão com mocotó, farinha e muita pimenta. E o detalhe é que come à moda da roça, com as próprias mãos.


“Deus me livre de não ser baiana”, brinca.

A receita deu liga.


“A chefe da minha sobrinha, que trabalha no Canadá, já recebeu um vídeo meu de uma amiga portuguesa. Outro dia uma seguidora de São Paulo disse que precisava me ver e comprou uma passagem de avião para comer um acarajé aqui. Não estou conseguindo administrar a dimensão que está essa coisa”, brinca.


A fama incipiente contrasta com um passado cotidiano que ela divide, infelizmente, com muitas mulheres. Maria Lúcia casou-se cedo e logo se viu ao lado de um marido violento e com problemas com álcool. Acuada, ela pegou os dois filhos pequenos, arrumou as malas e voltou para a casa da mãe.


“Não foi fácil. A gente dormia no chão e passou dificuldade, mas eu sabia que o melhor para mim e meus filhos era estar longe daquele homem. Depois de um tempo tudo se acertou. Por isso eu digo a todas que estão nessa situação: tenham coragem de sair, de dar o primeiro passo. No início é difícil, mas depois você dá graças à Deus”, milita.

Para sustentar os dois filhos, fez de tudo um pouco: costurou, foi manicure, fez cabelo e conseguiu um emprego na área administrativa da secretaria de Educação do estado. Mas sua grande paixão e talento era cozinhar.


E é justamente em frente ao fogão que ela mostra uma de suas principais facetas: o perfeccionismo e atenção aos detalhes.


“Eu sou muito exigente com minhas coisas. Quero tudo perfeito e por isso faço tudo sozinha. No mercado e na feira, só confio em eu mesma fazendo. Na pandemia, quando meus filhos iam por mim, me dava raiva. Só escolhiam errado, pegavam carne com pelanca. Fiquei doida”, relembra.

E conta um dos segredos do bom acarajé:


“A massa tem que estar bem batida. Se você ver a baiana colocá-lo no óleo e ele descer, é sinal que não está bom”. E tem mais: o camarão deve ser sempre graúdo e defumado; a farinha torradinha, vinda de Maragogipe, fininha e sem caroço. “O meu acarajé, que vendo a R$ 6, é muito mais bem feito, com ingredientes melhores, do que as que vendem na Orla a R$ 20”, cutuca.

Outra alfinetada nas colegas de profissão é por conta do vestiário.


“A roupa branca está para a baiana igual o jaleco está para o médico. Acho horrível quem vende com boné, camisa de político. Acarajé é uma comida ancestral, que tem que ser respeitada. É um ritual”, defende.

Apesar do amor pela culinária, a Negona da Favela não pretende abrir um restaurante para compartilhar suas receitas com o mundo. O motivo? Tempo.


“Já tenho 66 anos. Não vou me dedicar a algo que já já eu morro e fica aí para ‘os outros’. Prefiro passar minha vida viajando, é isso o que eu mais gosto de fazer”, revela.



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