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ALBERTO PITTA CONTA HISTÓRIA DO CARNAVAL NEGRO ATRAVÉS DOS TECIDOS


Uma das imagens criadas por Alberto Pitta para o Cortejo Afro (reprodução)


O artista plástico baiano Alberto Pitta, 62 anos, cria fantasias de Carnaval há quatro décadas. Para ele, essas roupas são essenciais para revelar a identidade dos blocos e também dos foliões:


"A roupa conta a história através de panos, tem um significado identitário. Ela fala de lideranças, de pessoas importantes, de nações... Muita gente às vezes nem sabe ler, mas é capaz de entender tudo o que aquela roupa diz apenas através das imagens que estão ali".

Depois de criar fantasias para blocos como Filhos de Gandhy, Olodum, Ilê Ayê e Cortejo Afro, Pitta resolveu finalmente atender aos apelos de amigos e reunir essas criações no livro Histórias Contadas em Tecidos - O Carnaval Negro Baiano, lançado na sexta-feira (13), no MAM-BA.


A publicação - com design de Nanny Santos e produção de Lilibeth França -, tem também criações de colegas de Pitta, como Lucas Batatinha, Jota Cunha e Raimundo Santos, o Mundão.



Alberto Pitta, com criações suas (foto: Lilibeth França/divulgação)

Apaches do Torotó


Além das imagens, há textos escritos pelo próprio Pitta, sobre os blocos.


Os textos contam a história do Carnaval do ano correspondente àquela fantasia.

O de 1977, por exemplo, é ilustrada pela roupa que os foliões usaram naquele ano no bloco de índios Apaches do Tororó. Embora seja mais ligado às estampas afrobaianas, Pitta também tem muito interesse nos blocos de índio, que foram muito populares da segunda metade dos anos 1960 até os anos 1980.


Naquele ano de 1977, durante a ditadura militar, uma grande parte dos oito mil foliões do Apaches foi presa. Inicialmente, o motivo seria a acusação de que integrantes teriam invadido um bloco feminino. Mas o que se viu em seguida foi uma violenta ação da polícia, que, segundo Pitta prendeu indiscriminadamente integrantes do Apaches e também de outros blocos de índio.

Para escrever esse texto, além da memória, Pitta recorreu a pessoas que participaram daquele episódio, incluindo foliões e o coronel Etienne, que recebeu instruções para prender os integrantes de blocos de índio.


"Inicialmente, ele recebeu ordem para prender os que estivessem vestidos de Apaches. Depois, a polícia começou a prender qualquer um que estivesse com fantasia de bloco de índio, mesmo que estivesse em casa e fosse de outro bloco", diz Pitta.

Segundo o artista plástico, mais de 400 integrantes dos Apaches foram detidos nos Aflitos.


O autor diz que preferiu dar o seu próprio olhar ao livro, em vez de consultar antropólogos pesquisadores do Carnaval.


"Eu estava lá [na rua], eu vi, sempre gostei do Carnaval. Comecei a sair desde a época do bloco Pena Branca, na Liberdade. Num próximo livro, vou incluir o Pena Branca, o Pele Vermelha..."

O livro é dividido, com seções dedicadas a temas como blocos de índio, afoxés e blocos afros. Há ainda uma parte dedicada ao Afródromo, que foi uma criação de Carlinhos Brown, e, claro, um capítulo especial dedicado ao Cortejo Afro, fundado por Pitta em 1998 e até hoje dirigido por ele. Antes, Pitta havia sido diretor artístico do Olodum, para o qual chegou a criar algumas fantasias.



Parte da vestimenta criada por Pitta para o Filhos de Gandhy, com detalhes em dourado

Amarelo da polêmica


No Cortejo, ele faz de tudo:


"Desde a captação de recursos, até o tema, as alas, os carros... Criei o Cortejo porque decidi criar um bloco que primasse pelas artes plásticas, com intervenções artísticas e instalações em pleno Carnaval. Ali, não tenho limite!", celebra Pitta.

Outra imagem de destaque no livro, que esconde uma boa história, é a fantasia do Filhos de Gandhy de 2019, criada por Pitta, que foi convidado pelo bloco para aquele trabalho. Muitos integrantes rejeitaram a ideia do artista plástico, que resolveu mexer nas cores originais e colocar um tom dourado no desenho. E, como tudo vira meme no Brasil, logo começaram a circular imagens comparando a roupa do bloco com a fantasia do Bananas de Pijamas.


Na época, preocupado com as discussões, Pitta foi conversar com Gilberto Gil, um ilustre membro do Gandhy. "Aí, ele me perguntou: 'Você mexeu no turbante?'. Eu disse que não tinha mexido. Ele então disse: "Ah, nesse caso, tudo bem, porque o que importa é que o tapete continua branco quando é visto de cima", disse o cantor, referindo-se a imagem de um imenso tapete branco formado pelos turbantes, quando vistos de cima.

O dourado foi mantido e, segundo o artista, foi um sucesso: as fantasias foram um sucesso de vendas.


Depois do lançamento do livro, Pitta abre, na Galeria Paulo Darzé, no dia 17 deste mês, a exposição Mariwô, que reúne 20 telas suas em pintura e serigrafia. As obras reproduzem indumentárias de orixás e símbolos da cultura africana, cobertos por mariwôs, que são as franjas usadas no candomblé e que representam proteção.




O LIVRO Título: Histórias Contadas em Tecidos - O Carnaval Negro Baiano Lançamento: sexta-feira, 13, a partir das 17h30 Local: Sala dos Arcos do Museu de Arte Moderna da Bahia (Av. Contorno) Valor do livro: R$ 390 Entrada gratuita


A EXPOSIÇÃO Abertura: 17 de janeiro, 17h Local: Paulo Darzé Galeria (Rua Chrysippo de Aguiar, 8, Corredor da Vitória) Visitação: até 18 de fevereiro Entrada gratuita


Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/alberto-pitta-conta-historia-do-carnaval-negro-atraves-dos-tecidos/


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