QUANDO O SAMBA VIRA ARRASTA-PÉ: CONHEÇA O SAMBA JUNINO, RITMO TRADICIONAL DE SALVADOR


O Samba Fogueirão é um dos mais tradicionais da cidade (Foto: Marina Silva/CORREIO


Sem dever ao forró e ao baião, movimento embala bairros como Federação, Garcia e Engenho Velho de Brotas


Uma bandinha - tocando sobre milho, fogueira e sobre o melhor período do ano - desfila pelo bairro entrando nas casas de quem convida a turma: um licor aqui, um amendoim cozido ali. É a perfeita festa junina.


Com uma diferença: no lugar do forró ou do baião, um sambinha. Saem a zabumba, a sanfona e o triângulo. Entram o timbau, o tamborim e o surdo. É possível? Sim, mas apenas em Salvador.


Se você não conhece, essa é a proposta do samba junino, uma manifestação tão soteropolitana que virou até patrimônio cultural da cidade, depois do registro pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), em 2018.


Há cerca de 50 anos, grupos de Salvador conseguem manter viva uma tradição que consegue tanto fazer um São João com a cara da cidade conhecida por seu Carnaval quanto ensinar e projetar alguns dos maiores nomes da música baiana.

Não há registro específico para dizer como tudo começou. Como todo movimento cultural realmente orgânico, o samba junino nasceu aos poucos, porque parte da população não viajava para o interior da Bahia para curtir os festejos da temporada. Mas só porque as pessoas ficavam na capital não quer dizer que não quisessem participar da farra.

“A gente se juntava para fazer samba e, por influência do período junino, começou a fazer músicas clássicas do São João, como as de Luiz Gonzaga, em cima do samba. Com o passar do tempo, a gente começa nossas próprias músicas, que falam de balão, de milho assado”, explica um dos diretores do grupo Dez Mais do Samba, Luiz Carlos Lima, mais conhecido como Mestre Kiabo.

O grupo fundado no bairro do Matatu de Brotas, em 1978, é um dos mais tradicionais da cidade. O esquema era bem informal - os integrantes do grupo passavam na casa dos próprios associados e, aos poucos, a comunidade passou a conhecer e seguir a festa. “Todas as nossas coisas têm um sobrenome que é resistência. Continuamos nessa resistência de manter a tradição do samba na comunidade”, acrescenta.


Essa resistência ganhou nuances particularmente importantes nos dois últimos anos, com a pandemia. Alguns grupos tiveram iniciativas como promover lives no período, mas só agora, em 2022, a situação passa a ter algum ar de normalidade. Aos poucos, os grupos têm retornado aos ensaios - que, antes do coronavírus, começavam a acontecer no Sábado de Aleluia, na Semana Santa, e seguiam por todos os sábados até o dia 2 de julho.

Bairros


Cada um em sua localidade, os grupos têm se movimentado. A relação do samba junino com os bairros onde cada um surgiu sempre foi direta e forte, como explica o músico Iuri Passos, professor de percussão popular da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Ele próprio cresceu com a influência do samba junino.


Um dos exemplos mais conhecidos é o Samba Fama, que tomou grandes proporções na década de 1980, na região do Terreiro do Gantois, na Federação.


"O Samba Fama era tão forte que muitos músicos iam para lá aprender esse movimento. (Carlinhos) Brown se inspirou muito no Samba Fama para criar a Timbalada. Muitas pessoas ainda hoje acham que Brown inventou até o timbau, mas foi a partir do movimento do samba que ele chamou vários timbaleiros para compor a Timbalada", conta.

Muitos percussionistas tinham contato com o samba justamente pelos sambas dos terreiros de candomblé. Da religião, vieram influências fortes como o atabaque, que deu lugar ao timbau. Assim, toda a comunidade se envolvia.


"A gente ficava querendo aprender o timbau e foi despertando o desejo de tocar não só o timbau, mas o surdo, o reco-reco, o tamborim", relembra Passos.

A ligação com o candomblé é um dos pontos importantes das origens da própria tradição, como enfatiza o músico e etnomusicólogo Gustavo Melo, pesquisador do samba junino. Uma das influências é o próprio samba de caboclo.


"Muitos músicos vinham desse espaço sagrado para as ruas de Salvador, trazendo a música dos terreiros".

Por suas próprias características, o samba junino não seria um gênero musical ou um ritmo propriamente dito, na avaliação do pesquisador. Segundo ele, muitos grupos hoje tocam o samba duro - que é um samba de roda influenciado pelo samba de caboclo e de andamento acelerado. É diferente do samba de roda do Recôncavo baiano ou mesmo do pagode atual, marcado por elementos como sintetizadores, guitarras e até influência do funk carioca.

"O samba junino tem uma levada mais carnavalesca, eu acho. Como as apresentações no São João são em movimento, a sensação é de um desfile de trios, ou escola de samba com uma levada de samba duro", diz, citando, ainda, a dança que enfatiza o movimento dos quadris. "O samba junino fala de elementos performáticos, fala da cultura do São João, mas também do cotidiano de bairros periféricos e seus problemas", acrescenta.

Covid


Para muitos grupos, a pandemia é um dos piores períodos de sua história. Nas palavras do presidente do Samba Fogueirão, Jorge Oliveira, conhecido como Jorge Fogueirão, o coronavírus conseguiu silenciar o timbau do samba junino, especialmente em 2020. Naquele ano, o grupo nascido na Vasco da Gama, em 1987, nem promoveu nenhuma atividade. Já em 2021, chegaram a fazer três lives.


Antes da covid-19, os ensaios aconteciam sempre às sextas-feiras, na Rua 11 de Agosto, além das participações nos ensaios de outros grupos. Hoje, são cinco integrantes na diretoria e outros 30 percussionistas.


"Inicialmente, o grupo tinha o objetivo de participar de apresentações em bairros onde eram realizados concursos de grupos, contribuindo, assim, para o fortalecimento de mais uma manifestação cultural criada pela comunidade negra de Salvador", analisa.

Em cada bairro, os grupos costumam promover atividades como oficinas de percussão, canto e dança, em especial para o público jovem.


"O samba junino é um movimento de resistência, pois desde sua origem sempre serviu de base e de referência para outros estilos musicais da música baiana, como a axé music e o pagodão, sempre contando com a força das nossas comunidades", diz. Este ano, a programação do grupo inclui até um festival.

Patrimônio


Desde 2018, o samba junino é registrado como patrimônio cultural de Salvador pela FGM. De acordo com o gerente de patrimônio cultural do órgão, Vagner Rocha, isso só foi possível porque, após a solicitação feita por representantes do samba, as pesquisas da entidade confirmaram que se trata de uma manifestação que só ocorre na cidade - em especial, em bairros como Engenho Velho de Brotas, Federação, Garcia, Tororó, Nordeste de Amaralina e Cajazeiras.


"Tem uma coisa muito específica do samba junino que sai do candomblé e vai para as ruas. Tem a questão da indumentária, da roupa quadriculada, xadrez, e do fato de que eles sempre arrumam o bairro com bandeirolas, fogueiras. As músicas fazem referência ao período junino, então, essa manifestação é muito peculiar, muito particular daqui. Com o passar do tempo, continua dinâmica e viva".

Mas o órgão sabe que, nesses casos, não basta fazer o registro. É preciso fomentar a tradição cultural para que ela continue sendo propagada. Por isso, o passo seguinte foi fazer um chamado 'plano de salvaguarda', que estabelece ações para curto, médio e longo prazo envolvendo vários agentes públicos.


Desse plano, saíram os primeiros editais de incentivo para essas ações, a exemplo do Prêmio Samba Junino, que está em sua quarta edição. Os grupos escolhidos para receber incentivo financeiro este ano foram divulgados no início de maio.


"Este ano, houve um aumento no aporte financeiro, chegando a R$ 300 mil nas premiações. É importante para contemplar esses mestres que sabem fazer o samba, que colocam o grupo na rua. A gente está muito feliz em conseguir, apesar de todas as dificuldades nos últimos anos com o setor cultural, manter esse edital", diz. No primeiro ano, o prêmio ofereceu R$ 180 mil aos vencedores.

Festival


Um dos projetos apoiados pelo edital será o Festival da Liga do Samba Junino, previsto para o dia 24. O evento gratuito acontece a partir das 18h, na Praça Marquês de Olinda, no fim de linha do Garcia.


De acordo com o organizador e gerente de projetos da Liga do Samba Junino, Vagner Shrek, o festival fará referência aos primeiros festivais de samba junino, que surgiram na década de 1970, com o objetivo de integrar os grupos que vinham produzindo a música em diferentes cantos da cidade. Assim, o ano de 2022 tem sido adotado também como um marco da comemoração desse movimento.


“Programamos um grande festival com a presença confirmada de 25 grupos, até o momento. Isso nos remete aos grandes festivais dos anos 80 e 90, quando, em bairros como o Engenho Velho de Brotas, desfilavam até 30 grupos numa única noite”, conta ele, que também é representante do grupo Samba Duro VS.

Foi justamente para ajudar na preservação da manifestação cultural que os grupos se uniram para criar a Liga de Samba Junino. Para Shrek, o samba junino tem uma importância para a Bahia que vai além dos festejos de Santo Antônio, São João e São Pedro, alcançando até mesmo o Carnaval. Isso porque muitos percussionistas, cantores e até músicas que hoje atuam no ramo carnavalesco vieram do samba junino.



A Liga do Samba Junino foi criada para preservação cultural do movimento (Foto: Reprodução)


“A relação direta entre o samba junino e o Carnaval acabou por limitar o crescimento do samba junino como um segmento musical de grande penetração”, opina, citando a força do Carnaval como capaz de atrair talentos que vieram do samba.

De fato, artistas como Tatau, Tonho Matéria, Compadre Washington, Beto Jamaica e Marcio Victor tiveram influência, em diferentes níveis, do samba junino. Alguns dos primeiros hits do axé, como A Roda, de Sarajane, também fazem parte do gênero musical.


“Nossos desafios são a formação de público e a organização dos grupos para representar suas próprias músicas nas rádios e programas de tv”, completa.

O período de maior visibilidade do samba junino teria acontecido entre as décadas de 1980 e 1990. O declínio vem justamente com o crescimento da axé music, que passa a absorver boa parte dos músicos para o segmento.


"Ainda assim, grupos remanescentes de samba junino, muitos deles formados por integrantes de uma mesma família, resistiram promovendo ensaios e arrastões, hoje, fortalecidos pelo reconhecimento como patrimônio cultural da cidade", analisa o pesquisador Gustavo Melo.

Formação


Hoje, garantir a preservação e a memória de uma manifestação como o samba junino é um dos desafios. Para a etnomusicóloga Ângela Lühning, professora titular da Escola de Música da Ufba, não dá para assegurar a existência de nenhum tipo de memória cultural de forma absoluta. Por outro lado, é possível viabilizar espaços e atenção pública para que essas tradições sejam compreendidas como importantes para a sociedade.


“No caso do samba junino não é diferente. Uma forma de dar espaço e atenção é falar sobre ele, ouvi-lo, mostrá-lo e apresentá-lo nos meios de comunicação de forma ampla e profunda sem folclorização, convidar as pessoas a conhecer tradições como o samba junino”, sugere.

Além disso, outra possibilidade é incluir o samba junino no currículo das escolas de Salvador, ao lado de outras práticas culturais locais e regionais. Isso significa abrir espaço tanto para o samba quanto para a formação de professores na área.


“O que mantém o interesse em uma tradição é a motivação e o interesse das pessoas que dela participam. A sua motivação, sua satisfação e seu bem-estar são o maior impacto do samba junino que proporciona isso nas suas comunidades tradicionais, redutos de cultura, fora do centro e de teatros com o pé no chão”, completa.

Fonte: https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/quando-o-samba-vira-arrasta-pe-conheca-o-samba-junino-ritmo-tradicional-de-salvador/

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