PEDRA DE XANGÔ CONSERVA ANCESTRALIDADE E CULTURA AFRO-BRASILEIRA EM SALVADOR


Fotos: Valter Pontes/Secom

A partir desta quarta-feira (4), Salvador ganha um novo espaço de lazer, integração à natureza e, principalmente, que reverencia duas fortes características do local: a história e a religiosidade. Inserido na poligonal da Área de Proteção Ambiental (APA) Vale da Avenida Assis Valente, em Cajazeiras X, o Parque Pedra de Xangô foi inaugurado no dia em que completa cinco anos de tombamento do monumento lítico como Patrimônio Cultural da cidade.


O novo espaço de convivência se constitui como importante símbolo histórico, cultural e religioso de Salvador, além de ser voltado para a conservação ambiental e desenvolvimento sustentável participativo. As intervenções englobam, ainda, a urbanização da Avenida Assis Valente. A via passou por serviços de macrodrenagem, pavimentação asfáltica, construção de meio-fio e passeio em concreto, pavimento em paralelepípedo de granito selecionado, além de 636 m² de espelho d’água.

Projeto – O projeto urbanístico do Parque Pedra de Xangô foi coordenado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF) e teve efetiva participação da comunidade local, especialmente de representantes de religiões de matriz africana. Também houve colaboração de acadêmicos, pesquisadores e ambientalistas.


Poligonal ampliada – Com uma área de intervenção urbanística de 67 mil m², o projeto do Parque da Pedra de Xangô contemplou a criação da via de monitoramento e o desvio da Avenida Assis Valente. Isso permitiu que fosse ampliada a poligonal do parque, protegendo a Pedra de Xangô, que está envolvida por uma vegetação remanescente de Mata Atlântica, reforçando, assim, o caráter sagrado do local.


O equipamento apresenta-se como uma contribuição para a melhoria das condições socioambientais da região de Cajazeiras e adjacências. Moradores e frequentadores do local entendem que a criação da APA Municipal é uma estratégia que atua como escudo contra um avanço indesejado sobre a Mata Atlântica, evitando a derrubada de árvores para implantação de loteamentos clandestinos em áreas de proteção.


"O local estava abandonado e hoje está preservado como patrimônio histórico-cultural de nossa cidade. Espero que esta ação venha valorizar e trazer frutos para toda a comunidade de Cajazeiras", diz o corretor de seguros Ulisses Pereira, 59 anos.


Memorial – A única edificação projetada no Parque Pedra de Xangô é um memorial com cerca de 500 metros quadrados de área construída e que tem o objetivo de abrigar os registros e experimentos das principais funções do parque, além de fortalecer os laços dos seus frequentadores com a natureza e o conhecimento das práticas religiosas e ambientais.


O projeto arquitetônico do memorial materializa o conceito que permeou toda a concepção do projeto ao acompanhar a forma das curvas da encosta existente no local. Para a estrutura, foram utilizados materiais ligados à simbologia do ambiente: as paredes, por exemplo, foram construídas em taipa de pilão, tijolo ecológico e pilares metálicos, referências a elementos relacionados à Terra e ao orixá Xangô. Todo o parque e entorno contam com 62 pontos de luz instalados, entre luminárias viárias, decorativas e projetores de LED.

A estrutura abriga uma sala multiuso, área para exposição de trabalhos, administração do parque, sanitários e um espaço destinado à comercialização de comidas e artesanatos. No entorno do memorial, há um anfiteatro a céu aberto, bancos com pergolados, além de rampas de acesso, guarda-corpo e corrimãos para o deslocamento de pessoas com dificuldades de locomoção. O paisagismo também foi valorizado com plantio de gramado e mudas de árvores.


Tombamento e história – Símbolo sagrado e elemento cultural afro-brasileiro, a Pedra de Xangô foi tombada em maio de 2017 como patrimônio cultural do município.


“O monumento é importante pela questão religiosa e também pela questão histórica, já que aqui foi um quilombo e local de culto. Sendo assim, a construção deste parque também faz parte da salvaguarda. Além do primeiro espaço de lazer, também é um novo marco identitário da região de Cajazeiras”, avaliou o presidente da Fundação Gregório de Mattos (FGM), Fernando Guerreiro.


No parecer técnico da FGM, responsável pela iniciativa, houve o entendimento de que a formação rochosa de 8 metros de altura e, aproximadamente, 30 metros de diâmetro, “é considerada um monumento natural, um marco na história de resistência daqueles que sofreram com a escravidão em Salvador, pois, segundo a tradição oral, servia como passagem e esconderijo de quilombolas perseguidos”.


Em 2005, a pedra foi completamente desnudada e por pouco não foi implodida para dar lugar à construção da Avenida Assis Valente. Através do movimento do povo de santo, em 2016, o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) contemplou a criação do Parque Pedra de Xangô, a APA municipal Vale do Assis Valente e o Parque em Rede Pedra de Xangô, com a finalidade de preservar todas as áreas verdes ainda existentes no entorno.


O livro "Pedra de Xangô: um lugar sagrado afro-brasileiro", fruto de dissertação de mestrado de Maria Alice Pereira da Silva, defendida no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal da Bahia (Ufba), traz importantes recortes sobre a história da pedra.

Citando o historiador Stuart B. Schwartz, Maria Alice revela que “o Quilombo Buraco do Tatu, localizado a leste-nordeste da cidade de Salvador, próximo à atual praia de Itapuã - Ipitanga, teve início em 1743 e foi destruído quase vinte anos depois, em 2 de setembro de 1763. Era um mocambo bem estruturado e possuía um sistema de defesa militar engenhosamente definido. Inúmeras trilhas falsas e armadilhas eram utilizadas para confundir as expedições reescravizadoras e facilitar a fuga durante os ataques”, diz um dos trechos da obra.


"Este equipamento representa um ato de reparação histórica. Estamos diante de um sítio natural sagrado afro-brasileiro, uma área remanescente de quilombo e de aldeamento indígena, que atende o desejo de uma comunidade em manter seu legado ancestral, garantindo o livre exercício de culto e manifestações afro-brasileiras e indígenas, conectando esse povo com o sagrado e sua espiritualidade", explicou Maria Alice Silva.
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