LADEIRA DA PREGUIÇA E O CORTEJO DE RESISTÊNCIA




Sentada no batente, em frente a uma das várias casas enfileiradas ao longo da ladeira, a Mulher Elástica retoca a maquiagem. Mais adiante, Chapeuzinho Vermelho, Lobo Mau, palhaços, super heróis e personagens dos mais variados aguardam a banda de sopros dar início ao cortejo carnavalesco mais esperado do endereço imortalizado pela canção de Gilberto Gil: o Banho de Mar à Fantasia, na Ladeira da Preguiça.


A festa que, segundo registros de antigos moradores, remonta à década de 30, teve uma pausa nos anos 80 e foi retomada em 2012 pela própria vizinhança, por iniciativa do Centro Cultural “Que ladeira é essa?”, idealizado pelo escritor e poeta Marcelo Teles. No domingo anterior ao carnaval, os foliões saem da ladeira em cortejo até a Praia da Preguiça, ao som de frevos e marchinhas, e mergulham no mar, de fantasia e tudo – como o próprio nome do evento sugere.


“Já contamos 13 blocos que nasceram na Ladeira da Preguiça por conta desta agitação [Banho de Mar à Fantasia]. Alguns resistem até hoje no circuito do carnaval soteropolitano, a exemplo dos blocos As Muquiranas e As Kuviteiras, ambos consagrados os maiores blocos travestidos da Bahia”, explica Marcelo.

Homens travestidos de mulheres podem ser considerados tradição carnavalesca em qualquer lugar, mas o costume parece ainda mais forte durante a festa na Preguiça. Meninos fantasiados de baianas, outros usando saias de paetês; homens de perucas, sutiãs e tamancos se espalham pelo cortejo e divertem-se entre os demais foliões. Ao perceber a aproximação de um fotógrafo que registra o evento, um garoto alerta:


“Não tire foto minha não, que ainda não ‘tô’ pronto. Falta o sutiã”.


A retomada do Banho de Mar à Fantasia vai além da irreverência do Carnaval. Marcelo, nascido e criado no bairro, conta que a iniciativa é, sobretudo, um grito de resistência e resgate da autoestima dos moradores que, por muitos anos, vêm sofrendo com o estigma da Ladeira da Preguiça, esquecida pelo poder público e considerada perigosa pela sociedade em geral.


“O Banho de Mar representa para nós a resistência e o resgate da memória cultural do bairro, além de ser uma ferramenta para politizar e conscientizar nossa comunidade e frequentadores”, defende o fundador do “Que ladeira é essa?”.

O incentivo funcionou. Por articulação dos próprios moradores, as paredes das casas são coloridas e ilustradas por grafites. No alto da ladeira, a vista para a Baía de Todos os Santos é uma das mais privilegiadas da cidade de Salvador. Sem auxílio do poder público ou patrocínio de grandes empresas, é a comunidade – com a ajuda de grupos e plataformas como MUSAS (Museu Street Art of Salvador), Coletivo de Entidades Negras e Salvador Meu Amor – que põe o bloco na rua.


“Tivemos o prazer de reencontrar, nas edições passadas, ex-moradores que estavam há 40 anos sem retornar à Ladeira da Preguiça, por conta do processo de especulação imobiliária e gentrificação que acontece no bairro, de forma silenciosa, há algumas décadas. Essa rede que o Centro Cultural ‘Que ladeira é essa?’ está engajado em construir permitiu que o evento ficasse com uma pluralidade em diversidade de público e linguagens artísticas, movimento que envolve desde a organização até a folia”, reitera Marcelo.


Administrado por Teles, Aldair Gomes, Crislene Santana e Gabriel Silva, todos moradores da ladeira centenária, o Centro Cultural fomenta atividades na comunidade para além do Carnaval. Oficinas de expressão, aulas de jiu-jitsu, capoeira e percussão são algumas das iniciativas que atraem, principalmente, crianças e adolescentes.


O cortejo de super heróis, palhaços, baianas e tantos outros personagens que vão tomar banho de mar, no domingo anterior aos quatro dias de folia, celebra a luta diária por reconhecimento e identidade daquela que é uma das três ladeiras mais antigas da cidade da Bahia, construída há mais de quatro séculos. Marcada por muito trabalho e sofrimento ao longo da história, desde a época em que era um dos poucos acessos entre Cidade Baixa e Cidade Alta, hoje ela ganha cores novas e grita por meio da comunidade que resiste: essa é a Ladeira da Preguiça.

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