GABI GUEDES E O MISTÉRIO DOS TAMBORES




Gabriel acumulava apenas oito anos quando dona Maria Felipa abriu a porta de casa com um chamado determinante. “Lá em cima estão precisando de um ogã e eu vou levar você pra tocar”. O comando vinha de sua avó, filha do Ilê Iyá Omin Axé Iyá Massê, um dos mais tradicionais terreiros de candomblé da cidade de Salvador, liderado pela ialorixá Mãe Menininha.


Até aquele momento de sua vida, o menino tinha criado uma relação tímida com o som dos batuques levados pelo vento até a casa em que morava com a família, reservada apenas aos momentos íntimos e descontraídos ao lado da sua mãe, quando tirava ruídos de latas de leite, baldes ou bacias d’água. Na obrigação daquele dia, no Gantois da década de 70, cercado de terreiros, matas e mistérios, o que ninguém sabia era que pequenas mãos tiravam daqueles atabaques de couro os seus primeiros sons. Elas pertenciam a Gabi Guedes, alagbê consagrado a Oxalá, um dos mais talentosos e reconhecidos percussionistas do Brasil.



Foi por determinação dos orixás que Gabi experimentou os vários batuques do axé. Tocando pela primeira vez, em um misto de espanto e curiosidade, enquanto acompanhava a movimentação dos orixás que se apresentavam, recebeu um chamado de Mãe Menininha.


“Toquei aquele ritmo achando que estava fazendo tudo direito, mas sentia muito medo. Cada orixá, ao se levantar, emitia o seu som. Quanto mais eu me assustava, mais minha avó olhava e falava que eu tinha que continuar. No fim das contas, toquei pra caramba, toquei o que sentia de verdade. E ali foi onde tudo começou”, relembra o músico. Daquele dia em diante, o terreiro do Gantois seria seu berço ancestral e musical. Ele se iniciaria no mistério, conheceria suas tradições e cartilhas, e desenvolveria a sua arte.

Foi no terreiro que Gabi conheceu Mônica Millet, neta de Mãe Menininha, com quem aprendeu as primeiras informações musicais. Sua rotina entre infância e adolescência, da escola para casa, de casa para o terreiro, era acalentada pelos sons das congas e dos atabaques. A troca também era intensa com os antigos alagbês do ilê. Vadinho, Hélio, Dudu e Edinho são, até hoje, grandes inspirações, bem como Elenilton, Geraldo e Cidinho.


“Naquela época, era muito difícil que algum deles pegasse na nossa mão e falasse: ‘Toca assim!’ A gente tinha que ter essa curiosidade, prestar atenção aos movimentos, compreender a linguagem dos sons, perceber quem chegava primeiro, se a baqueta ou a mão. O tempo, a melodia, as palavras cantadas… Toda essa polirritmia era essencial até para uma criança”, conta.

No ambiente sagrado do candomblé, a música preenche os mais variados espaços cotidianos para além das festas abertas ao público e das atividades que permitem a presença dos não-filhos das casas. Embora seja do ogã alagbê (como é chamado o responsável pelos toques rituais, conservação e preservação dos instrumentos musicais do terreiro), a função de imprimir os sons que convidam os orixás e embalam os barracões em dias de festas, a música faz parte da intimidade de todo filho e filha de santo da casa, habituados a ela desde o primeiro contato com as suas funções. São cantigas reproduzidas de geração para geração, muitas vezes entoadas pelas grandes matriarcas das religiões de matriz africana. Com Mãe Menininha do Gantois e Mãe Senhora, do Ilê Axè Omin Ewá, Gabriel aprendeu, além do fundamento que direciona sua vida espiritual, algumas canções que ficariam marcadas para sempre na sua memória afetiva.



Rum, Rumpi, Lê São três os tambores principais que soam os cânticos sagrados das festas de candomblé. Trabalhando em harmonia com o agogô, eles determinam os ritmos necessários para a criação da ambiência perfeita para a incorporação das entidades.


“O Rumpi e o Lê têm bases mântricas que se parecem e se confundem ao mesmo tempo. Já o Rum, fica o tempo inteiro ligado na movimentação da dança, além de dirigir o cântico, as pausas e as frases. Ele tem muitas responsabilidades, é o som terra, o encanto de tudo”, explica. Embora o Rum seja o principal dos atabaques, os alagbês devem aprender e experimentar todos os instrumentos para que possam conduzir qualquer um deles no momento adequado.

Do Gantois para o mundo

Não custou muito para que Gabi Guedes seguisse o destino reservado pela ancestralidade através da música. Em Salvador, dividiu os palcos com Margareth Menezes, Lazzo Matumbi, Gerônimo, Armandinho, entre outros artistas da cena nacional. Foi percursionista do Balé do Teatro Castro Alves e desenvolveu trilhas sonoras para espetáculos folclóricos ao lado de Emilia Biancardi.


Depois, conquistou territórios oceano afora: fez shows em Buenos Aires, ministrou oficinas em Paris e participou de festivais na Alemanha. Tocou durante nove anos ao lado de Jimmy Cliff, na Oneness Band, participando de turnês mundiais nos Estados Unidos, Alemanha, França, Japão, Hawaí, Taiti, Austrália, Suíça e Itália. Todo seu estilo, força e diferencial têm raízes fincadas na música que aprendeu nos terreiros.


“Não tive tempo de ir para a academia. Trabalhei em cima dos ritmos ancestrais porque sempre foram difíceis na cabeça de outros percussionistas e bateristas. As pessoas achavam que aquilo tinha que ficar dentro do terreiro. Tive contato com muitos músicos que discriminavam o candomblé, mas queriam estudar os clássicos lá fora. Eu fui crescendo e aproveitando os gringos que vinham aqui, dentro da minha casa, para aprender essas coisas todas”, comemora.

São tantos os ritmos tocados nas diferentes nações de candomblé, que Gabi desiste de listar todos, quando já não cabem nos dedos das mãos. E embora seja a partir deles que surja a inspiração para os projetos que assina ou participa, mesmo aos 56 anos de idade e carregando uma imensa bagagem musical, ele distingue com clareza o músico e o alagbê que nele existem.



“Algumas firulas acadêmicas não devem ser executadas dentro de uma casa de axé. Na academia, vale. Na rua, tudo bem! Você se empolga quando está tocando por aí. Mas entrou no espaço sagrado, acabou. Menos é mais. Ali nós temos a obrigação de respeitar toda a movimentação que está acontecendo na roda. A ligação é intensa e você é responsável por manter todo aquele encanto”, completa.

Além do profissionalismo e genialidade impressos em sua arte, é possível destacar entre os dois ambientes musicais por onde Gabi passeia uma mesma característica: o sorriso largo e delineado pelos olhos pequenos que se curvam e se arregalam, à medida em que senta a mão no couro estendido sob a madeira dos atabaques, produzindo uma variedade de sons quase incapazes de captar, de tantos e tão distintos. Um espetáculo que ecoa, feito encantamento, o mistério levado pelo vento.


FONTE:

http://www.saravacidade.com.br/fe/gabi-guedes-e-o-misterio-dos-tambores/

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