DA CIDADE BAIXA PARA O MUNDO: CONHEÇA MATHEUS L8, PREMIADO FOTÓGRAFO E CINEASTA BAIANO


Foto: Divulgação


Leite. É assim que sempre chamei este querido amigo e profissional do cinema, audiovisual e fotografia. Matheus Leite, ou Matheus L8, como também é conhecido e consta nas suas redes sociais, é soteropolitano, tem 31 anos, e é da Cidade Baixa – local de Salvador onde crescemos e nos conhecemos (estudamos na mesma escola).


Porém, foi na fase adulta que nos aproximamos, já tocamos num bloco de percussão inclusive (acredite!) e nos reencontramos dividindo a mesma profissão.


Matheus tem sido um destaque na cena soteropolitana e baiana com suas criações autorais como o Afrocentrípeta, que lhe rendeu o prêmio Sony World Photography Awards em 2020.

Nos vimos durante o Panorama Coisa de Cinema 2022 e, em papos pelos corredores, falamos sobre nossas vivências com Letieres Leite e, na sequência, ele me mandou um link do seu trabalho musical onde homenageia o maestro e sua obra (assista abaixo).


Assim eu tive a ideia de bater um papo para ele me falar um pouco da sua trajetória no audiovisual, suas inspirações e criações. E como não podia deixar de ser, são papos que atravessam muitas temáticas necessárias. Volto assim, em grande estilo, para trazer perfis de profissionais que eu admiro e tenho a honra de conviver nesse cenário da fotografia e cinema da Bahia.


Confira entrevista abaixo:





Como foi sua trajetória até chegar na fotografia e audiovisual?


ML – Eu cursei História na Universidade Federal da Bahia, mas não cheguei a concluir por ‘n’ questões, por imprevistos da vida e também outras coisas que falaram mais alto e a fotografia foi um desses pontos, desses elementos determinantes pra esse desvio de rota mesmo, de sair de um curso de Licenciatura em História e trabalhar com audiovisual e fotografia. Mas nesse desvio de rota eu levei a história junto comigo, a história é a principal lente do meu trabalho e uma das lentes pro meu olhar fotográfico, de pensar a história do mundo, a história do Brasil e as possibilidades de futuro a partir dessa história. É isso também que eu tento trazer no meu trabalho autoral enquanto fotógrafo, cinegrafista e cineasta.


Em algum momento do curso eu dava aula, era um projeto de estágio da própria UFBA, numa escola no Rio Vermelho, e chegou o momento que a fotografia tava tão forte na minha vida que, simultaneamente com a Licenciatura, eu uni as coisas, literalmente. Levei câmera, tripé e luz pra sala de aula e fizemos um projeto final de fim do ano letivo que virou um projeto anual depois, com os meus alunos e alunas. Então a fotografia entrou na sala de aula, entrou no meu curso de história, de alguma maneira me tirou do curso, mas eu levo a história comigo.


A fotografia surgiu para mim primeiramente como uma possibilidade de renda, e ela veio assim, mas no decorrer do processo eu aprendi a gostar mesmo, a ter tesão pela parada, ter prazer materializando ideias. Então hoje em dia ela está nesse lugar, do prazer mas também é minha de fonte de renda principal.

Me fale dos seus trabalhos mais notórios até hoje…


ML – Sobre o trabalho mais notório eu vou dividir em duas sessões, de notório para mim, em termo de impacto pessoal, de ter mexido comigo, e notório de repercussão, mídia, essas coisas. Então vamos lá: sobre notório para mim, vou elencar um chamado Renascentes, que a proposta era fazer um ensaio gratuito para gestantes de uma maternidade pública em Salvador, e a gente fez numa maternidade do subúrbio.


Acompanhamos essas gestantes, conhecemos elas, elas estavam fazendo o pré-natal e minha mãe trabalhava nessa maternidade, o que foi uma ponte facilitadora e que contribuiu bastante pra esse trabalho acontecer.

Eu e minha equipe de realização desse trabalho montamos um estudiozinho numa ala externa ao hospital para fazer as fotos e entrega-las para as gestantes de forma digital e também física, por mil motivos e por possibilitar que elas tivessem um registro desse momento com uma produção mais profissional. A vontade de fazer isso acontecer, e não foi apenas um trabalho de só ir lá no dia, a gente conheceu essas gestantes, soubemos das histórias delas, conhecemos também a história da gravidez de cada uma e da realidade delas, então foi algo que mexeu muito comigo e foi muito satisfatório de fazer.



Sobre notório de repercussão, foi o Afrocentrípeta,que me premiou internacionalmente no Sony World Photography Awards 2020, que voou em termos de portais nacionais e internacionais. Esse ensaio também tem um peso do ponto de vista pessoal. É um ensaio que eu levei a visão da história junto comigo.


Em resumo: o que me inquietava na história e que me levou a fazer esse ensaio da maneira que ele foi feito, foi ver nos livros didáticos e no senso comum, que a história do arranque dos povos negros para o Brasil era vista de maneira única, homogênea.

Mas depois, conhecendo um pouco mais da história da África, esse território continental, diverso, com variadas características físicas e culturais, de negros e negras do Norte da África, que são islâmicos com uma influência árabe, e suas distinções dos negros da região do Benin, de Angola, por exemplo, vemos a diferença e diversidade desses povos.




Eu via isso sendo tratado de uma forma muito homogênea nos livros, então nesse ensaio eu tentei provocar essa diversidade intrarracial, entre os povos negros que existiam e existem, e que teve essa repercussão bem maior, de um ensaio autoral movido por mim e por amizades que acreditavam na ideia. Outro trabalho muito importante pra mim, no audiovisual é o curta A VOAR, porque ele acabou sendo um dos primeiros trabalhos que eu consegui botar pra fora questões muito internas que me motivam, me paralisam, que me aceleram. Ele tem a narração de Lazzo Matumbi, atuação de Heraldo de Deus e de Isabelle Cruz, música de Don L. Um trabalho muito importante feito com amigos, com amizades realizando projetos.


E este ano de 2022, como foi pra você?


ML – Nesse ano eu fiz o curta metragem dirigido por Victor Uchôa, Contragolpe, e foi um ano de poucos trabalhos autorais e artísticos, trabalhei muito para publicidade, institucional, e eu tô com outro projeto simultâneo autoral e musical, o Xauim*.


Cite outros trabalhos/filmes que te inspiram nesse ramo


ML – Eu sou uma tragédia de memória. Tem coisas que mexeram brutalmente comigo e vou ser injusto com elas porque não vou lembrar agora, então eu vou lembrar das coisas mais recentes. Das últimas coisas que mexeram muito comigo foi um filme de Aly Muritiba, diretor brasileiro, com o filme Deserto Particular (2021). O filme mexeu muito comigo, achei foda, muito bom mesmo.


Outro filme que vi recentemente mas é antigo, Amadeus (1984), que tem essa coisa do fazer da arte, o que é a obra e o artista, e como o filme retrata isso, através de Mozart, achei foda e, pegando essa deixa de música, muitas coisas que me inspiram visualmente são sonoras, são musicais, eu gosto muito de ouvir, e minha fotografia vem muito de cenários criados a partir de músicas.




Quando você ouve esses artistas que tem a capacidade de, em um verso, desenhar uma cena, ou de, a partir de uma música, fazer um filme. Dorival Caymmi por exemplo, tem essa coisa, de ambiência que mexe muito comigo. Gilberto Gil com sua Domingo no Parque é muito cinematográfico mesmo, eu vejo a cena acontecendo.

Belchior e sua Paralelas, você imagina o cara ali, sozinho andando numa capital, falando “No Corcovado quem abre os braços sou eu”, você vê a cena, “Copacabana, essa semana o mar sou eu”. Isso é muito lindo, é poético, visual, eu sou muito mexido por música também pra trilhar visualmente o que eu faço.


Fonte: https://www.ibahia.com/colunistas/luz-alfazema-e-acao/da-cidade-baixa-para-o-mundo-conheca-matheus-l8-premiado-fotografo-e-cineasta-baiano

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