A MÚSICA MATRICIAL DE LETIERES LEITE


Fotos: Fernando Eduardo

Letieres dos Santos Leite tinha 12 anos e estudava no colégio estadual Severino Vieira quando entrou em contato com a música formal pela primeira vez. A pesquisadora Emília Biancardi havia criado, na época, uma orquestra afro-brasileira na escola e convidado mestres populares da Bahia para dar aulas – entre eles, mestre Moa do Katendê, o primeiro professor de percussão do então garoto Letieres, criado nas proximidades do Tororó em contato com os blocos de carnaval que desfilavam na região.


Embora ninguém de sua família tivesse veia artística, a arte sempre esteve à espreita: a pintura, porém, veio antes da música. Em 1977, foi aprovado no vestibular de Artes Plásticas da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde estudou por três anos.


“Ninguém da minha família era ligado à arte, meu pai tinha uma livraria. E eu tinha uma facilidade de mexer com tinta, pincel, tela. Eu pintava a óleo. Como eu treinei muito, quando fiz 16 anos já tinha uma certa técnica e aí fiz o teste da UFBA e passei. Fui pintando até os 20 anos de idade”, relembra.

Como aluno de Artes Plásticas, Letieres participava de mostras de música organizadas pelos estudantes da universidade e, certo dia, uma pequena flauta transversal de plástico, esquecida em um canto, chamou sua atenção. Começou a tirar som do instrumento, mesmo sem, segundo ele, saber sequer a diferença de uma nota grave para uma nota aguda. A partir daí, tudo mudou.



“A música me roubou do dia para a noite. Comecei a tocar essa flauta e com ela, começaram a me conhecer e passei a tocar profissionalmente. Eu queria estudar música, tentei entrar na UFBA e não passei no teste. Aquilo me frustrou muito, então saí de Salvador pra estudar. No começo dos anos 80, fui parar em Santa Catarina e de lá, fui pra Porto Alegre, onde fazia arranjo para orquestra sinfônica. Virei arranjador com dois anos estudando música sozinho, de maneira autodidata e sempre atrás de escola”, conta.

A busca pelo estudo formal da música levou Letieres até Viena, na Áustria, onde estudou em um conservatório por cinco anos e teve a oportunidade de tocar com músicos de diversos países. O rigor e técnica da música erudita uniu-se ao seu conhecimento de música popular e, em 1994, Letieres voltou ao Brasil trabalhando com inúmeros artistas em shows e gravações, entre eles, a cantora Ivete Sangalo, de quem foi músico e arranjador por 14 anos.


O interesse pelo universo percussivo baiano, semente plantada já na época do Colégio Severino Vieira e germinada ao longo de sua carreira e contato com outras vertentes musicais oriundas da diáspora negra, fez de Letieres um grande pesquisador das matrizes africanas presentes em praticamente todos os segmentos da música popular brasileira.


“Não existe nada na música brasileira que não esteja ligada, de alguma maneira, à música ancestral. Samba, bossa nova, frevo, maracatu: todas essas músicas têm ligação com a ancestralidade. Por isso, nada mais importante do que observar a raiz para entender a música. E eu observo essa matriz com um olhar científico”, explica o maestro.

Da junção do rum, rumpi e lé, os três atabaques do candomblé que se comunicam com os orixás por meio de toques específicos, e dos dois “zz” de jazz, surgiu, então, a big band que reuniria na música e na estética o que Letieres aprofundou ao longo dos anos: a Orkestra Rumpilezz.


Formada em 2006, a Rumpilezz é composta, além do maestro, por sete percussionistas (entre eles, Gabi Guedes) e quinze instrumentistas de sopro. Surdo, timbau, caixa, agogô, pandeiro, caxixi e atabaque se unem a trombones, trompetes, flauta, tuba e saxofones, em uma sonoridade única e moderna.

Nas apresentações da Orkestra, os percussionistas, propositalmente, vestem roupa branca de gala e ocupam lugar de destaque, enquanto os sopros usam trajes mais despojados e se posicionam ao redor do palco. “Existe o senso comum de que uma coisa é menos e a outra é mais. Na Rumpilezz, a gente diz que a percussão não está na cozinha, está na sala de estar”, brinca Letieres.



Quando comparada aos instrumentos tradicionais de harmonia, respaldados pelo academicismo europeu, a percussão ainda é encarada de maneira discriminatória e pejorativa, mesmo que venha dela a base da música popular brasileira. Segundo o maestro, esta é uma maneira de negar a cultura negra do ponto de vista de uma música elaborada e bem estruturada.


“O ritmo ainda continua sendo visto como uma coisa menor. A colaboração do ritmo nos compêndios de estudo ainda é bem menor. Isso é um lamento grande que eu tenho, mas a gente entende o porquê de essa música não ter uma observação científica mais rigorosa. É uma negação”, reforça.

Reconhecido e aclamado mundo afora, Letieres podia escolher qualquer lugar para viver, mas, não à toa, o maestro resolveu permanecer em Salvador, cidade de alma percussiva.


“Eu não posso negar, Salvador mexe comigo na inspiração. Andar na rua mexe com minha estrutura e não é pouco, não. E nada disso ia acontecer se eu não tivesse inspiração”.



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